
Pesquisadores e médicos do Hemocentro do Hospital das Clínicas de Botucatu desenvolveram uma linha de curativos que interagem com a pele e criam um processo natural de cicatrização em lesões de difícil tratamento.
Os biocurativos foram criados a partir de derivados nobres do sangue doado por voluntários. O trabalho rendeu resultados impressionantes. Desde 2008, pelo menos 2 mil pacientes receberam a terapia com os produtos, que se mostraram eficazes em 85% dos casos. Feridas que permaneceram abertas por anos a fio agora estão curadas.
O processo funciona da seguinte forma. Quando doado, o sangue é fracionado em basicamente três elementos. A porção vermelha desse líquido, conhecida como hemácias, é a mais aproveitada. Já as plaquetas e o plasma têm prazo de validade reduzido e nem sempre são utilizados. O descarte desse material oriundo de doação incomodava a hemoterapeuta Elenice Deffune, professora da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.
Por isso, em 2001, quando atuava como gestora do Hemocentro, a médica se dedicou a investigar possibilidades de destino para ele. "Ao entrevistar uma aluna candidata ao mestrado em enfermagem, indaguei qual seria o grande desafio de sua área de atuação. A resposta foi imediata: as feridas crônicas que debilitavam e comprometiam totalmente a vida de pacientes", conta Elenice.
A conversa gerou questionamentos e foi o primeiro passo para a investigação dos biocurativos. "Imaginei que se todos os tecidos saudáveis do organismo são nutridos pelo sangue e seus elementos, os componentes excedentes do hemocentro poderiam ser usados na cura das lesões", recorda.
Reciclagem
A farmacêutica Rosana Rossi, professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp, acreditou na ideia e passou a trabalhar no desenvolvimento dos biocurativos no Laboratório de Engenharia Celular do Hemocentro de Botucatu. Ela explica que o plasma congelado por mais de 12 meses perde a validade para a transfusão, mas continua com propriedades essenciais para o processo de cicatrização. Usado como matéria-prima, ele possibilitou a criação do biofibrin, pomada que age nos tecidos necrosados, possibilitando que eles descolem naturalmente do corpo.
As plaquetas não utilizadas em um prazo de seis dias também não podem ser transfundidas, mas mantêm excelente potencial curativo devido à grande concentração de hormônios. O gel de plaquetas, biocurativo capaz de atuar nas células-tronco e promover a recomposição da pele, foi desenvolvido a partir delas. "Os curativos bioativos estimulam a resposta do corpo humano. Ao contrário de medicamentos que estão no mercado há muitos anos, não promovem apenas a higienização das feridas e o conforto do paciente, mas a regeneração dos tecidos e o fechamento da lesão", pontua Rosana.
Dor e depressão
As feridas crônicas provocam impactos emocionais, sociais e econômicos. Pacientes acometidos por elas têm uma história semelhante: peregrinam pelas mãos de diversos médicos e enfermeiros e não conseguem curar os ferimentos. Além de provocarem dor, eles destroem a autoestima e acabam interferindo no tratamento das doenças associadas, aquelas que estão por trás das úlceras. "Já verificamos que as feridas com maior resposta terapêutica para o nosso produto derivam de males vasculares venosos, como os distúrbios da coagulação - varizes e trombofilia - assim como diabetes, anemia falciforme ou problemas decorrentes de baixa imunidade", acrescenta a farmacêutica.
Sucesso
As feridas crônicas costumam surgir nas regiões periféricas do corpo. Em média, as que são tratadas na Unesp se fecham em dois ou três meses. Mas o tempo varia de acordo com a gravidade do problema. Lesões abertas há 20 anos levam em torno de 18 meses para concluir o processo de cicatrização. Os primeiros pacientes tratados na Unesp eram moradores da região de Botucatu. Porém, a notícia dos bons resultados correu o Brasil e os biocurativos já curaram lesões de adultos e de crianças em todo o país.
"Um terceiro medicamento com propriedades do gel de plaquetas e do biofibrin foi desenvolvido para atender pacientes com pequenas infecções. Os curativos bioativos não deixam coloração diferente no local da ferida e nem alteram a consistência da pele", acrescenta Mariele Gobo, enfermeira encarregada de atender os doentes no ambulatório da Unesp.
Fonte Correio Braziliense

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